Tarde demais


"E não adianta nem me procurar
Em outros timbres e outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu"
(Pitty)

Ele não podia acreditar no que acabara de ouvir. Não aceitava o ocorrido. Como ela pôde fazer isso? E onde estava ele que não pôde impedí-la?

Quando o término do relacionamento deles mostrou-se algo inevitável, sofrera muito. Quando tentaram voltar, se manteve distante, com medo de sofrer novamente. Mais uma vez o relacionamento acabara.

Ele passou a viver no futuro. Projetou um futuro próspero e feliz, onde os dois, renovados, mais fortes, bonitos - como duas fenix renascidas - mais maduros emocionalmente, mais estabilizados financeiramente, retomariam a relação e seriam felizes para todo o sempre. Porém, o ato cometido por ela tirara-lhe toda a esperança.

Agora sabia que o futuro idealizado nunca seria concretizado. Pelo menos não com ela.

Acontecera o que ele tanto temia. Ela se entregará ao lado sombrio, a depressão e suas ideias fixas de colocar fim à tudo. Estava tudo acabado.

Ele se culpava por não ter lutado por ela, por não ter estado presente. Não tivera pressa em buscar o que queria, porque achara que sempre estaria ali, ao alcance de sua mão.

Ficara olhando tanto para o amanhã, que deixara o hoje e a pessoa que mais lhe importava escapar entre seus dedos.

Nada era capaz de amenizar a sua dor e sua culpa. Se culpava por não ter estado mais perto, por não ter visto que nos últimos meses ela pedia por socorro. Um pedido mudo, implicito em reclamações de estresse, de cansaço de tudo, de falta de ânimo para continuar sua jornada...

Sabia que a dor não a traria de volta, mas sentia seu mundo desmoronar. Somente agora via, com toda clareza, o quão grande era o sentimento que os unia.

Mas agora era tarde demais...

Cansaço

Tudo perdeu o sentido.
Como assim? Não se perde o que não se tem.
Nada nunca teve sentido.
Nunca teve um começo, nem terá um fim. Existem apenas ciclos se repetindo incessantemente...exaustivamente... como um pequeno chuaua correndo atras do próprio rabo, sem conseguir alcançá-lo...

Deixar ir...


"It's gone... sad but true, it's over. .."


Ela tentou ligar. Uma, duas, três vezes. Ninguém em casa.

Estava ansiosa. Sabia que a relação havia acabado há tempos. De ambos os lados. Era hora de assumir isso, oficializar. Deixar ir.

Deixar ir. Anos de relacionamento. Momentos, lembranças, projetos, planos para um futuro à dois. O que aconteceu? Quando tudo começou ir ladeira abaixo? Onde o fim começou? Sentia que o relacionamento sufocava a ambos e não preenchia nenhum dos dois...

Sabia também que não havia culpados. Ambos tentaram. Mas a vida resolvera separar os caminhos, levando cada um para um lado diferente.

Deixar ir. Momento de soltar.De aceitar. Aceitar que tudo mudou...

Resolvera viver a própria vida, cuidar de si. Olhar para o futuro. Se abrir para novas possibilidades, novas experiências.

Sim, seria necessário lidar com a ansiedade, a frustração, a solidão... mas sentia que estava preparada para isso. Preparada para enxergar o que durante muito tempo se recusara a ver... Preparada para deixar ir...

Instante

Num instante,
tudo mudou,
tudo ficou distante.
E fui invadida por uma dor que dói não sei onde...

Sobre o Tempo



O tempo, o tempo, o tempo
sempre o tempo...
O tempo cura, o tempo sara,
o tempo mostrará, o tempo levará, o tempo trará de volta...
O tempo, o tempo, o tempo...
Mas será que temos todo este tempo para esperar?
Será que o tempo presente não é o único que deve importar?
Porque ficar a esperar o tempo passar?

Textos Inacabados

"O primeiro a escrever versos em folhas secas para o acaso levar. De que me adianta anotar frases que não vou usar?

Linda, já não faz diferença..."
(Linda, a dor não é tão glamurosa assim afinal - Dance Of Days)



TEXTO I

Ela havia sido avisada. Várias vezes. De várias formas. Por várias pessoas diferentes.
Mas, como dizem, o pior cego é aquele que não quer ver, ou no caso dela, o pior surdo é aquele que se recusa a ouvir.
Ela se recusou a ouvir. Se deixou enganar. Talvez por carência, talvez por comodismo, talvez por imaturidade ou simplesmente por que não queria acreditar.
E seguiu se enganando. Seguiu vendo nele a pessoa que ela queria ver, a pessoa que ela gostaria que ele fosse, o príncipe encantado que agia como seu guardião, seu protetor...
Contrariou a sua própria lógica e foi arrastando uma situação que não deveria ser arrastada, um relacionamento que só existia na cabeça dela...E para quê? Para no final ver que se enganara todo o tempo... que as pessoas realmente estavam certas... que ela mesma estava certa em todas as vezes que admitira para si mesma que não deveria continuar.
No fim ele se mostrara mais um como todos os outros... Alguém egoísta e preocupado consigo mesmo... Talvez pior do que todos os outros...

TEXTO II

Veio do nada.
Não sei de onde surgiu.
E se foi da mesma forma,
sem dizer adeus.
Tudo isso aconteceu?
Ou foi apenas um sonho meu?
Uma ilusão?
Será?

TEXTO III

Dalila se preparava para ir dormir. Terminou de se vestir, apagou a luz. Deitou. E foi invadida por uma sensação de paz e amor que há muito não sentia. Mas a sensação lhe era extremamente familiar...
Dalila conhecia aquela sensação. Embora tivesse sido tomada por ela apenas uma vez, era uma sensação tão intensa, tão conhecida. E tão aconchegante. Era um retorno ao lar. Não a sua casa de infância. Não. Era um retorno ao verdadeiro lar.
Ela então fechou os olhos e ficou apenas sentindo. Esta sensação começava no coração. Era quente, mas agradável, como um sol de fim de tarde. Era como se seu coração não apenas estivesse aquecido, mas estivesse também se expandindo. Era como se um sentimento de amorosidade transbordasse do coração para o resto do corpo, espalhando-se por todas as suas células.
Não. Não era apenas o coração que se expandia. Era seu Ser, sua alma. Dalila toda se expandia, como se aumentasse de tamanho, como se não tivesse mais limites. Tocava o infinito. A Fonte. Acessava algo muito maior que si mesma e continuava se expandindo. E essa sensação de expansão e amorosidade trazia uma paz incomparável.

O Louco

"Mas pra quem tem pensamento forte o impossível é só questão de opinião E Disso os loucos sabem Só os loucos sabem!"
(Só os Loucos Sabem - Charlie Brown Jr.)


Sem ponto de partida...
Sem ponto de chegada...
Sem manuais, sem rumo, sem porto, sem um lugar para chamar de seu...
Leva apenas o necessário, o essencial.
Sorri para quem cruza o seu caminho, mas deixa que cada um siga para onde achar melhor.
Ele também seguirá por aí... sem rumo, sem porto, sem um lugar para chamar de seu...
Vai para onde a vida o levar. Apenas segue.
Sabe que tudo é ciclíco, que tudo são fases, então não se apega demais, não deseja o "para sempre".
Prefere o "infinito enquanto dure".
Sente que uma força o acompanha e ela aponta a direção. Ele apenas segue...
É chamado de Louco, mas eu o vejo daqui de onde estou. Acompanho seus passos. Acompanho sua aparente falta de rumo e não consigo ver loucura no Louco. Vejo sabedoria, vejo alguém que aprendeu o que a maioria das pessoas teimam em não querer ver: tudo é ciclico, tudo são fases, tudo está em constante mudança e movimento, então não há fins, não há perdas. Há apenas re-começos, novos começos de coisas que também se transformarão e passarão no momento que tiverem que passar, independente de nossa vontade, independente de serem boas ou ruins.
Sim, ele aprendeu algo que a maioria das pessoas não quer aprender.
E ele apenas segue...

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