Textos Inacabados

"O primeiro a escrever versos em folhas secas para o acaso levar. De que me adianta anotar frases que não vou usar?

Linda, já não faz diferença..."
(Linda, a dor não é tão glamurosa assim afinal - Dance Of Days)



TEXTO I

Ela havia sido avisada. Várias vezes. De várias formas. Por várias pessoas diferentes.
Mas, como dizem, o pior cego é aquele que não quer ver, ou no caso dela, o pior surdo é aquele que se recusa a ouvir.
Ela se recusou a ouvir. Se deixou enganar. Talvez por carência, talvez por comodismo, talvez por imaturidade ou simplesmente por que não queria acreditar.
E seguiu se enganando. Seguiu vendo nele a pessoa que ela queria ver, a pessoa que ela gostaria que ele fosse, o príncipe encantado que agia como seu guardião, seu protetor...
Contrariou a sua própria lógica e foi arrastando uma situação que não deveria ser arrastada, um relacionamento que só existia na cabeça dela...E para quê? Para no final ver que se enganara todo o tempo... que as pessoas realmente estavam certas... que ela mesma estava certa em todas as vezes que admitira para si mesma que não deveria continuar.
No fim ele se mostrara mais um como todos os outros... Alguém egoísta e preocupado consigo mesmo... Talvez pior do que todos os outros...

TEXTO II

Veio do nada.
Não sei de onde surgiu.
E se foi da mesma forma,
sem dizer adeus.
Tudo isso aconteceu?
Ou foi apenas um sonho meu?
Uma ilusão?
Será?

TEXTO III

Dalila se preparava para ir dormir. Terminou de se vestir, apagou a luz. Deitou. E foi invadida por uma sensação de paz e amor que há muito não sentia. Mas a sensação lhe era extremamente familiar...
Dalila conhecia aquela sensação. Embora tivesse sido tomada por ela apenas uma vez, era uma sensação tão intensa, tão conhecida. E tão aconchegante. Era um retorno ao lar. Não a sua casa de infância. Não. Era um retorno ao verdadeiro lar.
Ela então fechou os olhos e ficou apenas sentindo. Esta sensação começava no coração. Era quente, mas agradável, como um sol de fim de tarde. Era como se seu coração não apenas estivesse aquecido, mas estivesse também se expandindo. Era como se um sentimento de amorosidade transbordasse do coração para o resto do corpo, espalhando-se por todas as suas células.
Não. Não era apenas o coração que se expandia. Era seu Ser, sua alma. Dalila toda se expandia, como se aumentasse de tamanho, como se não tivesse mais limites. Tocava o infinito. A Fonte. Acessava algo muito maior que si mesma e continuava se expandindo. E essa sensação de expansão e amorosidade trazia uma paz incomparável.

O Louco

"Mas pra quem tem pensamento forte o impossível é só questão de opinião E Disso os loucos sabem Só os loucos sabem!"
(Só os Loucos Sabem - Charlie Brown Jr.)


Sem ponto de partida...
Sem ponto de chegada...
Sem manuais, sem rumo, sem porto, sem um lugar para chamar de seu...
Leva apenas o necessário, o essencial.
Sorri para quem cruza o seu caminho, mas deixa que cada um siga para onde achar melhor.
Ele também seguirá por aí... sem rumo, sem porto, sem um lugar para chamar de seu...
Vai para onde a vida o levar. Apenas segue.
Sabe que tudo é ciclíco, que tudo são fases, então não se apega demais, não deseja o "para sempre".
Prefere o "infinito enquanto dure".
Sente que uma força o acompanha e ela aponta a direção. Ele apenas segue...
É chamado de Louco, mas eu o vejo daqui de onde estou. Acompanho seus passos. Acompanho sua aparente falta de rumo e não consigo ver loucura no Louco. Vejo sabedoria, vejo alguém que aprendeu o que a maioria das pessoas teimam em não querer ver: tudo é ciclico, tudo são fases, tudo está em constante mudança e movimento, então não há fins, não há perdas. Há apenas re-começos, novos começos de coisas que também se transformarão e passarão no momento que tiverem que passar, independente de nossa vontade, independente de serem boas ou ruins.
Sim, ele aprendeu algo que a maioria das pessoas não quer aprender.
E ele apenas segue...

Suspenso

Silêncio.
Tudo suspenso.
Parece que o dia parou.
Ou foi o mundo que parou?
Ou foi o tempo...
Tudo parado, suspenso...
Parado, silêncio, suspenso lá fora,
porque aqui dentro tudo é movimento,
movimento contínuo, barulho, tormento.
Embora tudo lá fora continue suspenso,
no meu mundo interno sempre há coisa acontecendo.
Amores, dores, cores e formas nascendo, todo o tempo.

Procurando o Coelho Branco

Quem era aquela pessoa com olheiras que olhava para ela do outro lado do espelho?
O rosto até era familiar, mas tinha algo a mais naquele olhar e não eram as olheiras que teimavam em aparecer...
Tinha algo a mais. Angústia? Dor? Tristeza? Ansiedade? Ou será uma alegria diferente, uma alegria que doia, que queimava, que sangrava?
Aliás, de onde vieram tantos sentimentos, de onde viera tamanha sensibilidade? E aquele romantismo idiota e absurdo que se alojara dentro dela, trazendo junto consigo outros visitantes - sonhos, devaneios, desejos... - sem pedir permissão???
Como alguém pode vir à sua casa sem ser convidado e ainda trazer outras companhias para se alimentar da sua energia, da sua vitalidade?
Não, ela não entendia. Como alguém tão focada em resultados podia gastar tanto tempo sonhando com o princípe encantado, com alguém que tocaria não apenas o seu corpo mas também a sua alma, alguém que a ensinaria a amar, a querer, a esperar - mesmo que esperar em vão - o ser amado?
Como ela poderia querer encontrar alguém que tocasse a sua alma e a levasse a dimensões desconhecidas, a universos mágicos, a um mundo etereo, com castelos de cristais construidos no ar? O mesmo universo mágico das fadas, das bruxas, dos anjos, dos magos, dos elementais... o universo onde tudo é possível, onde se ouve sons que ninguém mais escuta, onde tudo tem mais vida... onde tudo é realmente mágico...
Quanta besteira!!! Como podia ser tão infantil? Mas, no fundo, ela queria habitar este reino só por um momento, só por um segundo. Queria sentir todo o torpor de uma paixão, toda a sua força, seu poder...
Não. Ela não estava pedindo por castelos em terras distantes e finais felizes para todo o sempre. Não. Ela só pedia por um pouco de magia, de encantamento. Só pedia para sair um pouco das terras desertas e sem graça da lógica, da impecabilidade da razão, das teorias perfeitas que explicam o Universo e os seres humanos... e caminhar livremente, alegremente pelo reino mágico e ilógico do sentimentos e das sensações...
Ela se sentia como Alice, procurando pelo Coelho Branco. Esperava também achar o caminho para a toca do Coelho e entrar em um mundo mágico, nem que fosse para pouco depois despertar e descobrir que todo aquele reino mágico fora apenas um breve sonho...

Relax

Hoje ia escrever um conto para a Caixa, mas aproveitei para relaxar e ficar vendo alguns videos. Revi este, que tem tudo a ver com a visão que eu tenho da paixão...e a eterna luta razão x emoção:


video

Em breve coloco outros textos por aqui...

Opostos

Eros e Thanatos
Vida e Morte
Luz e Sombra
Yang e Yin
Dia e Noite
Progresso e Estagnação
Movimento e repouso
Duas faces de uma mesma moeda
Duas energias que se entrelaçam e se complementam
Duas forças opostas dentro de mim
Qual delas prevalecerá?

A Primavera

"Muda a estação
Necessário e são
Você a florecer
Calmamente, lindamente..."
(Só Agora - Pitty)


Ela vivera muitas estações ao longo de muitos anos.

Mas este inverno estava sendo diferente e ela sabia que a primavera, prestes a chegar, traria consigo o seu próprio florescimento. Um florescimento pelo qual ela esperara durante muitos anos. Esta seria a SUA primavera, o seu tempo de desabrochar, de se abrir para o mundo, de florescer, como uma flor que levara mais tempo do que o esperado para deixar de ser um botão, para deixar de ser a promessa de uma flor e transformar-se no que deveria de fato ser.

E ela estava pronta. Sentia isso em cada célula do seu corpo. Pronta não apenas para desabrochar, mas também para deixar esta energia, que a tomava, a invadia, transbordar e alcançar outras pessoas ao redor.

Por muito tempo esperara pela sua primavera. Se preparara para ela... E então, a primavera chegara.

Dúvida


"Alguém me interne no paraíso,
Preciso urgente dar um tempo por lá!
O dia passa enquanto eu perco o juízo"
Pitty

Na memória,a adolescente confiante e corajosa.
No espelho,a adulta cansada e insegura.
Na mente, a dúvida: quando me perdi de mim mesma?quando deixei de ser quem eu era, para me tornar quem eu sou hoje?

A Batalha



"Não me entrego sem lutar
Tenho, ainda, coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então."

Ele não estava acostumado a ouvir não. Ela não estava acostumada a dizer sim. Porém, ela estava sentindo que estava cedendo. Sentia que a qualquer momento perderia esta guerra contra seus sentimentos.

A batalha dentro dela era intensa. Ela se sentia sendo puxada para um lado, pela razão, e para o outro, pela emoção. Por muito tempo ela acreditara que a razão ganharia esta batalha, mesmo porque, sua natureza era racional. Ela sempre ponderava cada aspecto, olhava as situações por vários ângulos e pesava também as consequências de seus atos, não apenas as consequências que a atingiriam, mas também o que as suas decisões afetariam na vida das outras pessoas, de todos que estavam ao seu redor.

Este comportamento calculista a havia feito resistir todo este tempo, afinal, sabia que aquele tipo de envolvimento com ele não daria em nada e poderia acabar prejudicando - ou machucando - um dos três envolvidos. Sim, ela estava no meio de duas pessoas e sabia que não poderia ter os dois. Ficar com os dois ia totalmente contra os seus princípios e, mesmo que mantivesse uma situação assim por um tempo, como uma pessoa bastante lógica sabia que uma hora teria que optar por um dos dois, teria que escolher quem ela realmente queria ao seu lado, com quem gostaria de dividir a sua vida.

Mas estava difícil continuar falando "não" para a terceira pessoa. Seus sentimentos estavam pressionando-a. Por mais racional que uma pessoa seja, por mais que ela aprenda a lidar com seus sentimentos, como dominá-los, como eliminá-los? O conflito dentro de si era grande, a vontade de ceder, de se entregar, de vivenciar isto - nem que fosse apenas por uma única vez - se tornava cada dia maior. Perguntava a si mesma, quanto tempo mais aguentaria?

E valia a pena lutar tanto tempo contra si mesma? Por mais que invocasse a razão, tinham respostas que a sua mente não conseguia obter por que ninguém podia afirmar com certeza como seria o seu futuro, qual reação viria de cada ação sua. Como seria se ela se deixasse levar, se ela abandonasse o controle e a razão apenas desta vez? Só havia uma maneira de saber... e era justamente através da entrega, mas, como alguém sempre acostumada a estar no controle, ela não sabia como fazer isso...

A Espera



Esperando.
Esperando o quê?
Esperando algo, alguém...
Esperando sei lá o que...
Mas, quando não se sabe o que se espera
Como reconhecer quando este algo, alguém ou sei lá o que aparecer?
Sei lá. Como poderia saber?
Talvez esteja esperando algo que nunca acontecerá.
Talvez esteja esperando uma vida que nunca poderá ser minha ou fazer parte da minha.
Talvez esperando algo que eu já tenho e não consigo perceber por não saber o que espero e, por isso, não perceber que já possuo o que tanto gostaria de ter...

O Guardião

"Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam."
Clarice Lispector

Ele olhava para o rosto pálido e abatido de Pamila. Sabia o que a oprimia, conhecia os seus conflitos, os seus dilemas, as suas angústias, os seus questionamentos. Conhecia toda a sua história. Como? Embora ela não soubesse, ele vinha acompanhando-a desde o momento em que fora concebida.

Acompanhara seu nascimento, sua infância, sua adolescência, o início de sua vida adulta. Embora Pam não o enxergasse, estivera ao lado de sua cama nos dias em que ela caira doente. Embora ela não o sentisse, abraçara-a nos momentos em que ela se sentia sozinha ou com medo. Pam não podia ouví-lo, mas ele sempre falara palavras sábias e reconfortantes em seus ouvidos, sempre orientou-a. Algumas vezes ela conseguira sentir ou assimilar algo que lhe era dito, mas não através de seus cinco sentidos e sim através do que ela chamava de intuição.

Esta noite não fora diferente. Pam estivera em mais uma das suas crises e ele ficara ao seu lado todo o tempo. Falara-lhe, pela enésima vez, sobre o seu destino, sobre sua missão de vida, sobre o que Pam estava destinada a fazer. Ela não ouvia suas palavras, mas sentia cada vez mais uma sensação reconfortante. Sentia dentro de si uma certeza - que não sabia de onde vinha - de que não devia desistir ainda. Que havia algo reservado para ela. Sim, ela de alguma forma sabia disso, mas não imaginava que recebia estas coisas através daquele ser ao seu lado. Como poderia saber?

Pam sempre ouvira que existiam anjos, mas nunca teve certeza disso. De qualquer maneira, histórias e desenhos de anjos tinham um efeito muito forte sobre ela. Mal sabia que havia - e sempre houvera - um ao seu lado...

Conforme a sensação de confiança, de calma, de acolhimento expandia-se, Pam relaxava, até o momento em que entregou-se ao sono e ao cansaço. Ele, por sua vez, sabia que no dia seguinte ela já estaria melhor. Conhecia sua protegida, olhara sua alma diversas vezes. Sabia, melhor do que qualquer outra pessoa, a força que estava guardada naquele ser. Sabia que algo dentro de Pam era muito mais forte do que a escuridão que às vezes caia sobre ela e isto era o que importava, pois isso a manteria no caminho certo e a faria cumprir o seu destino. Sabia também que sempre estaria ali, ao lado de sua "amada criança" - era assim que via sua protegida - acolhendo-a, incentivando-a, inspirando-a, cobrindo-a de amor e de luz, preparando-a para a sua jornada em busca de si mesma.

Vazio

"Num instante
Você vira sapo
Bobeou na crença
Príncipe volta
Ao seu posto
De lenda..."
(Música "Lenda" - Céu)

- Então é assim que uma longa história se acaba? Anna perguntava-se incessantemente. Era difícil de acreditar...

Era difícil de acreditar que alguém que fora tão importante para ela, durante tanto tempo, hoje já não significava mais nada.

Há dias Anna percebia algo diferente em si mesma. Uma calma vazia, uma sensação de que perdera algo, de que perdera algo que, na verdade, nem queria mais, mas que era seu, por isso não queria perder. Queria ela mesma descartar... E hoje ela finalmente percebera o que estava deixando-a vazia: a ausência de seus pensamentos - antes quase obsessivos - em alguém que nem reparava que ela existia.

Anna vivera uma paixão "platônica" por alguém durante muito tempo. E, durante este "muito tempo", sua mente era habitada pelo ser desejado. Seus pensamentos insistiam em vagar sempre de encontro a ele; tudo o que via, ouvia, vivia lembrava-a daquela pessoa tão querida, tão amada, tão esperada. Mesmo nos últimos tempos, quando o seu sentimento já havia enfraquecido, esta pessoa ainda fazia parte de sua vida.

Mas algo mudara. Anna perguntava-se há quantos dias não pensava nele, não desejava vê-lo, ouví-lo. Ela não sabia. A única coisa que sabia é que tudo foi acontecendo lentamente. Nas últimas vezes que se viram ou se falaram ela já havia percebido que algo mudara dentro de si. Ele já não despertava mais os mesmos efeitos nela.

Mas ela não esperava que seu sentimento desaparecesse assim. Anna sabia que um dia iria esquecê-lo, mas a sensação que tinha é que - depois de anos convivendo com aquele sentimento - um dia acordara e notara que não sentia mais nada.

Ao mesmo tempo que Anna sentia-se alíviada - seria este o fim da angústia de querer algo que não podia ter? -, sentia-se também roubada, como se alguém tivesse colocado a mão dentro dela e arrancado algo que lhe era precioso, deixando o espaço - antes ocupado por aquela pessoa - totalmente vazio.

Então seria assim a partir de agora? Tudo que restava era um espaço vazio, pronto para ser ocupado por outro? Cadê tudo aquilo que antes via nele? Onde estava o encanto, a magia, o mistério, a vertigem que a envolvia? Sumiu?

Anna sentia como se tivesse passado um furacão em sua vida. Um furacão que tirou tudo do lugar. E, em seguida, passou. Agora era reconstruir tudo, recomeçar.

Anna ainda não conseguia saber se este "esquecimento" era definitivo ou se o sentimento ainda voltaria. E não sabia também definir o que era pior: a angústia que vinha acompanhada de um amor intenso, uma vontade de cuidar, de proteger, de fazer alguém especial feliz; a angústia que, ao mesmo tempo, queimava e confortava, preenchia, tirava seus pés do chão ou esta calma vazia, morna, sem dor mas também sem graça que ela sentia agora...

Estas dúvidas que rodeavam-na, Anna sabia, somente o tempo poderia lhe responder...

A Garota do Espelho

Sophia estava em pé, em frente ao espelho, no banheiro de sua casa. Olhava-se e olhava-se, fixamente. Não sabia mais há quanto tempo estava ali, perdida em seus pensamentos. Na verdade, nem tinha mais noção de que estava em algum lugar...

Ela tinha ouvido de alguém a frase "Conhece-te a ti mesmo". E quanto mais ela olhava para aqueles olhos tão enigmáticos da garota do espelho, mais ela perguntava a esta garota: "Quem é você?". Sophia sentia que era mais do que o nome que constava no seu RG. Sentia que era mais do que sua personalidade, seus sentimentos, seus pensamentos, seus sentidos, seus instinstos, sua experiência de vida, seu conhecimento. Sentia que era muito mais. Era muito maior do que tudo aquilo. Mas quem era ela? Quem era ela para o mundo? Quem era ela para si mesma? Qual era o seu lugar? Porque existia?

Sophia olhava e olhava para aquela figura na sua frente, esperando que a estranha garota do espelho pudesse lhe revelar a sua verdadeira personalidade, como aqueles oráculos ou magos de livros de mitologia. Esperava que a figura no espelho movesse seus lábios e lhe dissesse tudo que ela precisava saber sobre si mesma. Na verdade Sophia sabia que a garota que via no espelho - e neste momento lhe parecia desconhecida, alguém que ela estava vendo pela primeira vez - era ela. Mas, ao olhar profundamente para si, tinha a impressão de que, por detrás daqueles olhos havia alguém a lhe observar. E quanto mais encarava os próprios olhos, maior era a impressão que alguém lá dentro lhe observava e ria-se dela, ria-se de sua angústia, de sua busca por respostas. Este alguém ria porque era o ser que guardava as respostas que Sophia queria e que, provavelmente, eram óbvias, como todas as verdades são. O problema é que, por serem tão óbvias, as verdades sempre nos passam despercebidas.

Se havia um ser lá dentro, olhando-a por detrás de seus próprios olhos refletidos naquele espelho, então este ser guardava algo de importante, de essencial. Talvez, pensou ela, esta criatura dentro dela - será que é o que as pessoas chamam de alma? - guardasse as respostas capazes de libertar Sophia, de lhe apontar a direção a seguir. Mas, neste momento, sentiu pela primeira vez que havia algo de inalcançável dentro de si mesma. E como alcançar algo que é inalcançável?

E continuou a olhar-se e questionar-se, buscando descobrir quem era, enquanto a garota do espelho devolvia-lhe o olhar, como intrigada com os olhares profundos que Sophia lhe dirigiaO problema era que Sophia não percebia que não poderia alcançar a parte inalcançavel com sua mente limitada e também não poderia enxergar o "algo" importante dentro de si com seus olhos físicos. O caminho era justamente o inverso: fechar o olhos e sentir. Apenas sentir. Pois como já disse um grande sábio: "o essencial é invisível aos olhos. Só se vê bem com o coração."

Um pouco de Clarice Lispector

"Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre?
Não. Sei que ainda não estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por objetivo achar - e que por segurança chamarei de achar o momento em que encontrar um meio de saída. Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê."

Extraído do livro ''A Paixão segundo G.H"

Saudade

Bia entrou em casa, após um longo e cansativo dia de trabalho. Parecia que tudo que poderia dar errado naquele dia, havia dado errado. Mas, o que mais tinha estressado Bia durante todo aquele dia foi a lembrança daquele rosto, o rosto que ela não via há quase cinco anos, o rosto que há meses ela nem lembrava que um dia existira.

Resolveu tomar um banho. Talvez a água pudesse, ao escorrer, levar embora aquela lembrança tão nítida. Era como se o dono daquele rosto tivesse passado este dia todo ao lado dela. Era só fechar os olhos para vê-lo ao seu lado. Via seus olhos, seu sorriso, todos os seus traços, como se ele estivesse ali, como se pudesse tocá-lo...

Terminou o banho. A pressão da água não fora forte o suficiente para levar aquela presença embora.

Bia foi até a cozinha. Preparou um café. Depois, pegou se diário e sentou-se no sofá. Precisava escrever para organizar suas idéias. Se lembrou de uma música que gostava que dizia "Tempo, tempo mano velho (...) tempo seja legal". O tempo não havia sido legal com ela. Mesmo passando tão rápido, os cinco anos que se passaram não levaram todo o sentimento que sentira. Quando ela achava que não havia mais nada, que aquela história havia terminado, se pegou pensando nele novamente, descobriu que o sentimento ainda estava todo ali, agora misturado com uma saudade profunda...

Agradeceu a si mesma por ter apagado os números de telefone dele. Claro, poderia buscá-lo pela internet, ainda se lembrava dos e-mails deles... Mas, valeria a pena? Depois de tanto esforço para esquecê-lo, porque trazê-lo de volta para sua vida? Não, não faria isso. Aguentaria o peso daquela saudade, até ela passar, até a sua vida voltar ao normal, até aquele rosto voltar a ser parte do passado...

Palavras

Muitas idéias na cabeça. Muitos sentimentos e sensações. Muitas coisas querendo sair, mas, cadê as palavras?

Sinto-as, vejo-as, quase as toco, mas não consigo colocá-las no papel nem digitá-las... São como fumaça que se dispersa quando tento tocá-las.

Se eu pudesse te dizer tudo o que penso... Poder, até posso. Ninguém me proibe... Mas, as palavras não querem sair. Como se elas estivessem trancadas dentro de mim e fossem impedidas de vir para fora... E mesmo que elas pudessem sair, você me ouviria? E à que preço? Não quero o seu sermão. Não quero o seu julgamento, suas opiniões. Já não me importa o que você acha... Não quero que finja que se importar...

Me sinto cansada. Me sinto frágil, como se eu pudesse quebrar a qualquer momento.

Palavras... quando penso em você, a única palavra que vem é: silêncio...

Lágrimas

Ela não costumava chorar. Sempre fora forte. Controlada. Equilibrada. Alguns consideravam-na até mesmo fria, insensível. Talvez ela fosse assim mesmo.

Porém, todos têm um dia atípico. Um dia que parece estar tudo invertido. Ela estava em um dia assim.

Acordara cedo, mas não conseguira fazer nada a manhã toda. Estava dispersa. O bom senso mandava-a trabalhar nas coisas que estavam por fazer, mas o desejo a convidava a viajar, a sonhar de olhos abertos. Lembrava de seu último encontro com ele. A próximidade de seus corpos, os olhos dele nos dela, o sorriso espontâneo, cativante, que a fazia sorrir também. Ela realmente amava-o. Lembrava da boca dele, tão próxima da dela, tão convidativa, pedindo para ser beijada... Mas, ela não tomaria esta iniciativa. Eram apenas amigos...

Porque justo ele? Porque amava tanto alguém que nunca a amaria à altura? Alguém que nunca seria a pessoa que ela queria que ele fosse?

De repente, toca o telefone. Sim, era ele. Falando novamente da atual namorada e de tudo que faria naquele fim de semana com ela.

Enquanto escutava, o peito apertava, a cabeça pensava mil coisas. Inventou algo, desligou. E chorou. Chorou como há muito não chorava. Chorou. Mas, não eram lágrimas que escorriam. Era sentimento. Chorou todo amor que sentia por ele. Chorou toda a paixão, todo o desejo. Chorou também todos os sonhos românticos. Chorou as coisas que gostaria de fazer com ele, os passeios, as viagens, os fins de semana. Chorou todo o carinho e cuidado que tinha para oferecer.

Chorou. Durante muito tempo se deixou ficar ali, entregue à tudo aquilo que vinha de dentro e saia dela em forma de lágrimas, mas que não eram lágrimas. Era o sentimento que estava indo embora, escapando através de seus olhos. Chorou até sair tudo. Até ficar vazia. Chorou até deixar de amá-lo...

Nós Dois - Leandro Stanley

(Poema escrito por um amigo meu... Diz tudo que penso / sinto...)

Queria ter lhe conhecido antes,muito antes...
Para que nenhum de nós dois tivesse medos ou cicatrizes.
Queria ter estado com você, quando seu coração descobriu o que era AMOR.
Quando seu corpo descobriuo que era DESEJO.
E antes que pudesse sofrer,
eu estaria do seu lado,
amando-lhe,
entregando-me,
e juntos poder ter aprendido,
as lições da vida e do coração...
Queria ter te conhecido muito antes...
Quando suas esperanças
começaram a nascer,
quando seus sonhos ainda eram puros,
e seus ideais ainda ingênuos...
Pena termos nos encontrado só agora,
já com o coração viciado em outros amores,
com uma imagem meio falsa,
do que é felicidade,
do que é entregar-se...
Queria ter lhe encontrado antes,muito antes...
Numa nova vida,
num outro tempo,
em que não precisássemos
temer o nosso futuro,
nem nossos sentimentos...
Ah! como eu queria!
Mas, não foi assim, te conheci agora...
na hora certa?, no momento certo?...
eu não sei...
Só sei que te encontrei agora e,
na sua vida, se você quiser, para sempre

Conquista

Ana estava jogada em sua cama, olhando para o teto, a divagar. Porque os homens não conseguem dominar a arte de conquistar uma mulher? Por que se perdem em mentiras, frases prontas, clichês? Porque são tão predadores?

A primeira resposta que lhe passou pela mente foi: eles são assim porque não querem realmente conquistar. Querem apenas sexo. Mas, esta resposta não fazia sentido, não era verdadeira. Ela conheceu homens que foram apaixonados por ela. E, mesmo estes caras, não foram bons na arte de conquistar.

Será que o problema era ela? Será que Ana era exigente demais?

Ana então começou a devanear, imaginando o sedutor perfeito. Como ele seria?

Primeiro: Seria alguém preocupado com a própria imagem. Não um narcista. Não. Simplesmente alguém que se preocupa em estar sempre apresentável.

Segundo: Conteúdo. Não poderia ser uma caixa vazia. Linda por fora e sem nada por dentro. Deveria ser culto, sem ser chato e cansativo. Deveria falar de sentimentos, de problemas sociais, de pessoas, filosofia, arte, poesia, música... Não precisaria ser um especialista ou ter um conhecimento muito profundo nestas áreas. Não. Precisaria apenas saber que estas áreas existem e saber o suficiente para manter uma conversação inteligente e agradável.

Terceiro: Nada de mentiras ou clichês. Nada de frases prontas. Nada de falar o que todos os outros falam. O conquistador perfeito entenderia que cada mulher é única e ressaltaria as características únicas de Ana. Notaria suas preferências, suas singularidades. Prestaria atenção no que ela fala. E saberia o momento certo de usar estas informações.

Quarto: Inteligência emocional. Sim. Nada de crises existênciais ou inconstância. Nada de grosserias. Seria alguém com bom humor e saberia lidar com os problemas e conflitos para não se estressar sem motivo. Claro que todo mundo tem um "dia de fúria", mas que ele saberia conversar sem ser hostil com ela. Se o cara, no momento da conquista, é grosseiro, se irrita com tudo, imagina depois de um tempo de relacionamento???

Quinto: Criatividade. Mais uma vez, não faria a mesma coisa que todos os outros fazem. Surpreenderia. Instigaria. Se mostraria alguém interessante.

Sexto: ATITUDE!!! Nada seduz mais uma mulher do que um homem que sabe o que quer e vai de encontro a isso. Que tem atitude. Que diz o que pensa. Direto e objetivo.

Sétimo: Saberia dar um passo de cada vez. Ter atitude não significa ir para cima da mulher como um predador atacando sua presa. Não. Conquistar é cativar. Criar laços, como ensinado no livro "O Pequeno Princípe". É um processo lento, que exige paciência, foco e responsabilidade. Responsabilidade? Sim, porque como diz o livro já citado "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativa". Só conquistaria uma mulher se estivesse mesmo apaixonado por ela. Conquistar por hobby, por ego é sinal de imaturidade. O sedutor perfeito não é imaturo.

Oitavo: Gostaria de sexo. E muito. Mas sem ser vulgar.

Quanto mais Ana sonhava de olhos abertos, mais claro ficava para ela porquê estava sozinha até então. Sim, o problema era mesmo ela. Não, ela não era exigente demais. Era INOCENTE demais... Inocente demais por esperar que existam mesmo princípes encantados andando por aí. Ana finalmente percebeu: a pessoa que ela queria, esperava, desejava não existia. Alías, existia sim. Mas apenas dentro de sua própria mente...

Ausência - Vinicius de Moraes


Eu deixarei que morra em mim
o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo
da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das
estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

O Pincher da Vovó



Minha avó tinha um pincher que era muito engraçado. Toda vez que alguém chegava na casa dela, o cachorro fazia a maior festa. Se esfregava nas pernas das pessoas, deitava no chão, fazia graça, parecia pedir por carinho ou por brincadeira.

Porém, você tinha que deixá-lo fazer toda esta festa sozinho. Se ameaçasse colocar a mão nele, a criatura mudava rapidamente, mostrava os dentes, rosnava, às vezes até mesmo avançava para morder...

Tenho conhecido alguns homens ultimamente que lembram o pincher da vovó... Fazem a maior festa para mim, se abrem, mesmo quando mal estou dando atenção para eles... Entretanto, sei que se eu tentar realmente dar carinho ou brincar com estes caras, no momento seguinte mostrarão os dentes...

Moral da história: Nunca confie em criatura nenhuma - por menor que ela seja - que faça festa demais para você, pois elas provavelmente te atacarão assim que conquistarem sua simpatia...

Abrindo a Caixa

Demorou, mas finalmente o blog foi criado.

A caixa de PanDora foi aberta. Em breve, muitos textos com histórias - como já diz na descrição - reais ou inventadas. Tanto faz... Afinal, o que é a realidade?

Até breve.

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